Oct 19, 2021 Last Updated 7:03 AM, Oct 19, 2021

1 Tema - A consolaçäo em alguns textos de Isaías

Categoria: Missione Oggi
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A CONSOLAÇÃO EM ALGUNS TEXTOS DE ISAÍAS

O tema teológico da CONSOLAÇÃO que é dada por Deus encontra-se principalmente em Isaías (capítulos 40-66). O próprio Cirácida ou Ben Sirac (Eclesiástico) descreve a ação consoladora em Isaías nestes termos: “Com o poder do espírito ele viu o fim dos tempos, consolou os aflitos de Sião” (Sir 48,24).
A aflição e o sofrimento do povo de Israel são conseqüência da dura experiência do exílio em Babilônia. Os judeus haviam sido deportados para lá em três etapas, por Nabucodonosor. Como aconteceu nos tempos da escravidão no Egito, quando o sofrimento do povo encontra um profundo desabafo no clamor dirigido ao Senhor (cf. Ex 2,23-25), também agora, durante o exílio, o desconforto dos exilados motiva dolorosas lamentações.

A profundidade deste lamento do povo exilado é dilacerante, pois Israel tem consciência de que a atual situação em que se encontra é causada pelo terrível fato de ter Deus julgado a incoerência, a infidelidade e a idolatria do seu povo. Em poucas palavras, Israel sabe que não respeitou os empenhos assumidos com a aliança. Agora, das profundezas de sua desolação, não vê quem “o possa consolar”. As interrogações repassadas de aflição se tornam explícitas também na boca do autor: “Que dizer? A quem te comparar, filha de Jerusalém? Quem te salvará e te consolará, ó virgem, filha de Sião?” (Lm 2,13).

Estas interrogações brotam do último estádio do desespero. O povo não divisa nenhum outro horizonte, a não ser este: invocar o Senhor. A salvação está no encontro entre o povo que clama por misericórdia e o Senhor que responde com palavras e poderosas ações. Esta é a verdadeira consolação. Já acontecera no Egito: perante o clamor dos filhos de Jacó, “Deus ouviu os seus gemidos, lembrou-se da sua aliança com Abraão, Isaac e Jacó. Ele olhou para os israelitas e se ocupou deles” (Ex 2,23-25).

A verdadeira consolação, portanto, é trazida por uma intervenção de Deus. Ela pressupõe uma tomada de consciência, uma confissão e uma súplica. Deus, finalmente, intervém na profundidade do sofrimento, como iniciativa de resposta à reação do povo sofrido e aflito. Ainda que na literatura profética de Isaías (capítulos 40-66) não se encontre a mesma seqüência de verbos do Êxodo, aquele texto, entretanto, descreve a determinação mesma de Deus de intervir de maneira igualmente decisiva, como fez no Egito. Isaías qualifica a intervenção salvífica de Deus como “consolação”.


1. DEUS CONSOLA MEDIANTE OS SEUS ENVIADOS

A primeira passagem em que Deus investe intermediários de uma missão de consolação abre a literatura do Dêutero-Isaías: “Consolai, consolai meu povo! – diz vosso Deus. Animai Jerusalém, dezei-lhe bem alto que suas lidas estão terminadas, que sua falta está
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expiada” (Is 40,1-2, TM). Aqui, o profeta, admitido no Conselho de Deus, compreende em profundidade, através da voz divina, a mensagem que deve levar ao povo. É como se ele desse clara sonoridade à voz incompreensível de Deus. Analogamente, nos profetas, o plano de libertação e de “consolação” de Deus faz-se palavra audível e, portanto, compreensível, em força da voz do profeta. A tarefa específica do profeta só se torna autêntica e verdadeira após uma experiência do divino, após tomar consciência de ser enviado. O profeta só pode testemunhar uma experiência (cf. João Batista: Jo 1,32-24).

As palavras confiadas ao profeta têm eminentemente o tom da linguagem do amor, do amor nupcial, para que penetrem no coração de Israel desanimado, que é chamado de “meu povo” e “esposa”. Esta qualificação, que já inclui uma perfeita reconciliação entre Deus e os exilados, tem a missão de reanimar, de reconfortar e, portanto, de dispor os ânimos a reviverem maravilhas semelhantes às do primeiro êxodo.

O profeta deve assim mergulhar nas contingências atuais do povo, compreender suas lógicas internas e enxertar nelas a voz circunstanciada do mandatário. A situação torna-se então o lugar teológico da vontade de Deus, através da obra interpretativa do profeta. Este dá as indicações de como fazer uma leitura dos sinais dos tempos e garante ao povo: o tempo, o kairós se fez oportuno para efetivar uma mudança.

Este processo, contudo, não é fruto de um estudo sociológico, mas da escuta atenta e silenciosa da voz de Deus, que só pode ser acolhida se o profeta é admitido ao seu Conselho. O verdadeiro profeta, portanto, é um contemplativo de realidades divinas. Depois da contemplação, ele já não fala por força própria, mas somente em nome de Deus.

No nosso caso, o profeta ouviu a voz de Deus; portanto, deve necessariamente levá-la e traduzi-las aos exilados: ele é o “mensageiro”. É uma voz de conteúdo de “consolação” em favor dos que, há muitos anos, gemem sob o jugo da escravidão. É uma mensagem de alegria, porque prospecta uma iminente intervenção de Deus. De fato, anuncia o fim da escravidão, o perdão dos pecados e a chegada de Deus.

A partir do primeiro anúncio dêutero-isaiense compreende-se, entretanto, que a verdadeira consolação não se limita apenas a uma “alegre mensagem”, mas é uma realidade positiva e concreta. Assim que a mensagem divina acaba de entrar na história, automaticamente deve influir sobre a situação. De fato, aqui o sofrimento é anunciado como algo que já acabou, e a culpa de Israel como coisa já descontada. As palavras de consolação são apenas a expressão de uma mudança que já começou, destinada a completar-se em breve tempo.

Isaías traz um outro texto que descreve a ação mediata de Deus: “O Espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor consagrou-me pela unção; enviou-me a levar a boa nova aos humildes, curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção, aos prisioneiros a liberdade, proclamar um ano de graças da parte do Senhor, um dia de vingança de nosso Deus; consolar todos os aflitos, dar-lhes um diadema em vez de cinzas, o óleo da alegria em vez de vestidos de luto, cânticos de glória em lugar de desespero. Então os chamarão as azinheiras da justiça, plantadas pelo Senhor para sua glória” (Is 61,1-3).

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O profeta sente-se investido pelo Espírito de Deus, que torna autêntica sua missão de “evangelista” e de “arauto” do novo e inaudito anúncio. Também neste caso, a mensagem
visa preparar os ânimos e dispor as pessoas à iminente intervenção de Deus, que mudará em alegria a situação dos aflitos.

Note-se aqui que os intermediários, em si, não têm poder; o poder eficaz está somente em “proclamar o feliz anúncio”, que pode mudar a situação dos homens. Eles têm apenas a missão divina de purificar os espíritos, para dispô-los a acolher, no momento certo, o tempo oportuno para efetivar uma radical e completa transformação. Por isso, o profeta se faz voz de Deus e estimula o povo através da exortação: “Abri no deserto um caminho para o Senhor, traçai na estepe uma pista reta para o nosso Deus. Que todo vale seja entulhado, que toda montanha e colina sejam abaixadas, que os cimos sejam aplainados, que as escarpas sejam niveladas! Então a glória de Deus manifestar-se-á, todas as criaturas juntas apreciarão o esplendor, porque a boca do Senhor o prometeu!” (Is 40,3-5).

A linguagem altamente simbólica do profeta indica que o povo deve preparar-se moralmente, em vista da iminente e grande revelação-ação divina. Dá a entender que a obra de consolação é uma ação complexa: é iniciativa exclusiva de Deus, mas que, no entanto, serve-se da mediação humana; envia assim, através do profeta, a mensagem que se combina com a resposta do povo.


2. DEUS CONSOLA PESSOALMENTE

As coleções do Segundo e Terceiro Isaías oferecem uma longa série de textos que descrevem Deus em sua própria ação de “Consolador”. Limitar-nos-emos a citar alguns textos, para descobrir o que Deus emprega para efetivar esta ação de consolação: “Eu, eu mesmo sou aquele que te consola. Quem te julgas tu para teres medo do homem, que há de morrer, do filho do homem, cujo destino é o da erva? Tu te esqueces do Senhor, aquele que te criou, aquele que estendeu os céus e fundou a terra” (Is 51,12-13).

Deus, portanto, se define e se apresenta aqui como Criador onipotente, “Aquele que consola”. Assim, no texto de Isaías (51,12), Deus se proclama o “Existente-Consolador”, como para nos dizer que a obra de consolação faz parte, intrinsecamente, do seu SER DEUS. Deus, portanto, emprega seu poder criador para eliminar todos os obstáculos contrários à realização do processo de salvação. Apresentando-se com tão clara decisão, Deus responde a todas as perguntas angustiosas do povo, que anda à procura de um consolador. Deus se apresenta então como a autêntica CONSOLAÇÃO (cf. Is 57,18).

Sobretudo depois de ver a situação do povo, depois de ver as “ruínas de Sião”, Deus não se limita a pronunciar palavras de circunstância, mas a Palavra de sua intervenção, que muda radicalmente a situação: “Iahweh consolou Sião, consolou todas as suas ruínas; ele transformará o seu deserto em Éden e as suas estepes num jardim de Iahweh. Nela se encontrarão gozo e alegria, cânticos de ações de graças e som de música” (Is 51,3 = LXX).


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Desta intervenção positiva do Deus Criador-Consolador, Sião – a Cidade de Deus – a Esposa, que antes vivia “aflita” e “desconsolada”, agora é reconstruída de modo maravilhoso. É o que o autor indica, quando descreve as suas pedras engastadas em jaspe e os seus fundamentos encastoados de safiras (cf. Is 54,11). Sião – a Esposa – será inundada de cânticos
nupciais, de júbilo e de alegria, e prestará ao Deus Vivo o culto renovado, feito de confissões celebrativas e hinos de louvor.

Este povo “verme de Jacó”, “vermezinho de Israel” (cf. Is 41,14), não deve mais temer, porque o socorro do Santo de Israel está ação. Deus não podia esquecer o povo que escolhera para si (cf. Is 41,8; 44,1; 46,3). A fidelidade de Deus se manifesta pontualmente no decurso do tempo e da história, de tal sorte que o fim último do plano de salvação determina intervenções pontuais de Deus. E Israel não pode mais perder de vista este último ponto de referência; se o faz, só experimenta o silêncio e o abandono de Deus.

O profeta usa duas imagens plásticas para definir a eficácia da ação consoladora de Deus: o pastor e a mãe. Ouçamos: “Como um pastor apascenta ele o seu rebanho, com o seu braço reúne os cordeiros, carrega-os no seu regaço, conduz carinhosamente as ovelhas que amamentam” (Is 40,11). A imagem bucólica do pastor era muito familiar para Israel e retorna freqüentemente em sua experiência de povo peregrino, conduzido e “apascentado” por seu Deus (no Novo Testamento a imagem é retomada por Mateus 18,12 s; por Lucas 15,3-7; por João 10,1-16...). O Senhor cuidou amorosamente do seu povo. De fato, nutre-o, reúne-o, protege-o dos perigos da noite e recolhe-o ao redil; demonstra ternura e cuidado para com os mais fracos, com os cordeirinhos e as ovelhas prenhes. Estas últimas sentem também a sua ação consoladora, porque ele está continuamente presente, pronto a intervir quando necessário.

Assim, a atenção cuidadosa de Deus (Bom Pastor) continua na imagem da mãe: “Como a mãe consola o filho, assim eu vos consolarei, e em Jerusalém sereis consolados” (Is 66,13 = LXX). Deus, aqui, se compara à mãe que consola o filho. Mais ainda: como mãe, ele se inclina sobre Jerusalém para “enxugar as lágrimas de todos” (Is 25,8). E visto que aqui se trata de Deus, poder e ternura se unem. Portanto, o Deus-Criador, o Deus-Mãe age como Deus-Consolador.

Os efeitos benéficos produzidos pela intervenção consoladora de Deus também aparecem bem evidenciados em Isaías. O primeiro resultado positivo é a eliminação de todos os inimigos de Israel, que até serão entregues como penhor em resgate do povo eleito (cf. Is 43,3). Um segundo resultado, ainda mais evidenciado, é este: o próprio Deus guiará o novo êxodo, abrindo espaçoso caminho no deserto (cf. Is 49,11). O retorno dos exilados será seguido pela ampla reconstrução da cidade de Jerusalém, que por sua vez será a Mãe, em cujos peitos fecundos – figura da primária consolação – poderão saciar-se os seus filhos (cf. Is 66,11). Com esta renovada experiência do êxodo, Israel estabelece uma nova relação com o seu Deus. Uma experiência mais perfeita que a antiga, porque desta vez receberá o Espírito de Deus, garantia única de estabilidade e perenidade desta relação (cf. Is 44,1-5).

Um último efeito benéfico é constatado na própria natureza criada. Não haverá mais, como no passado, deserto e estepes áridas, mas rios e fontes, nascentes, pastagens e jardins com
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árvores. Pela ação do Deus-Consolador começa a surgir uma nova criação. Portanto, a própria criação é convidada – e ela se presta docilmente – a colaborar com o Senhor, unindo sua alegria à dos exilados que retornam: “Cantai, ó céus! Terra, exulta de alegria! Monta-
nhas, prorrompei em aclamações! Porque o Senhor consolou seu povo, comoveu-se e teve piedade dos seus na aflição” (Is 49,13).

O perdão das culpas, a destruição dos inimigos, o retorno após o exílio de Babilônia, a nova criação, eis o conteúdo da ação consoladora de Deus, segundo Isaías (capítulos 40-66), consolação que apresenta características próprias. Em primeiro lugar, como já vimos, Deus não se limita a distribuir expressões genéricas, ou a fazer simples promessas de consolação, mas intervém pessoalmente, “com a palavra e com o poder”, mudando em alegria a situação desoladora do seu povo. Depois, Deus leva adiante sua ação, empregando toda a sua onipotência de Criador. Em terceiro lugar, Deus une poder e amor, especialmente quando se compara a uma mãe que consola o filho. Por fim, Deus emerge como único Princípio, única Fonte de consolação, ao passo que o profeta – seu mensageiro – é seu humilde e dócil mediador que colabora com seu Senhor, proclamando eficazmente o “jubiloso anúncio” da ação consoladora divina.


PONTOS PARA REFLEXÃO

· Conheço todas as situações existenciais que necessitam de “consolação”? Estou em condições de acolher também os gemidos dos que não têm vez nem voz?
· À luz do que foi dito acima, quem é o profeta? Qual sua função no contexto de uma ação que deve trazer “consolação”?
· Pode haver um profeta da “consolação” que não seja contemplativo? O que é a contemplação num contexto onde se requer a “consolação”?

P. Antonio Magnante


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